Jazz em Portugal III :

Rui Neves, Jazz em Agosto.

O Festival Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), que se realiza em Lisboa é paragem obrigatória para os amantes do Jazz, tanto para amadores como para os entendidos na matéria. Completando este ano um ciclo de 25 anos, este festival tem vindo a apresentar aos Portugueses o que de melhor se faz pelo mundo do jazz mundial. Ornette Coleman, Cecil Taylor e Steve Lacy, são apenas alguns dos nomes que já passaram pelos seus palcos. A edição de 2009 realiza-se entre 1 e 9 de Agosto, foi programada em torno do tema “Ícones e Inovadores” e promete fazer jus à reputação que tem vindo a construir ao longo dos anos.

Jazz em Agosto existe desde quando ?

Desde 1984 e ininterruptamente. Em 2009 completa um ciclo de 25 anos.

É subvencionado pela Direcção Geral das Artes ?

Não, dado que é uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), do seu serviço de música, dotado de orçamento próprio que faz face às suas necessidades.

Como surgiu a ideia desta iniciativa ?

Surgiu com a iniciativa de Madalena Perdigão, desaparecida em 1989, criadora do Serviço de Música da FCG e da Orquestra Gulbenkian, fundadora e directora do Serviço Acarte da FCG em 1983. A partir de 2006 o Jazz em Agosto, pela extinção do Acarte no qual estava integrado, passou a integrar a Serviço de Música.

À parte do estado, a fundação tem algum parceiro que apoie a produção/ comunicação de “Jazz em Agosto”?

4. À parte do estado, a fundação tem algum parceiro que apoie a produção/ comunicação de “Jazz em Agosto”? Os parceiros são essencialmente estratégicos e logísticos como Lufthansa /Swiss Air Lines e Hotel Lisboa – Açores, mediáticos como a SIC – notícias, enquanto a associação de Turismo de Lisboa, além de proporcionar mediatismo na sua rede, suporta algumas viagens aéreas de jornalistas / críticos internacionais, este é o único aspecto prático financeiro à produção.

Como é feita a programação, quais são os critérios de escolha dos músicos, grupos? O que têm em mente ao realizá-la, existe alguma orientação específica ?

É elaborada com mais de um ano de avanço e o critério primordial é o de um sentido exploratório, dando a conhecer formas inovadoras do jazz, uma música em permanente evolução. Por conseguinte, não veiculando artistas da linguagem convencional, mais famosos e comerciais. Suscitar a adesão do público mais cultivado e interessado numa alternativa, amadores de música mais exigente, objectivo mantido desde o princípio e que tem resultado numa fidelização de audiências e num reconhecimento nacional e internacional. Assim como programar com rigor a sequência programática contendo dez ou doze concertos no espírito “less is more”, ao contrário de festivais com grande oferta e de programações desiguais. As programações são acompanhadas de filmes documentais, conferências e colóquios. Por outro lado, os materiais gráficos merecem grande atenção bem como todo o processo de comunicação utilizando as tecnologias da actual era digital.

Como Lisboa acolhe os dias de jazz? Quem é o vosso público ?

Festival com longevidade e permanência no calendário Lisboeta, o Jazz em Agosto atrai públicos de classe média / alta com instrução superior, amadores e melómanos de várias camadas etárias, também estudantes e turistas que se encontram em Lisboa no Verão com objectivos culturais. A diversidade estética veiculada pelo Jazz em Agosto capta também audiências fragmentadas que gostam de vários géneros musicais: rock, clássica, contemporânea.

Em Portugal, existe alguma política de apoio à difusão da música Jazz?

O estado, ou melhor, a Direcção Geral das Artes (DGA) atribui subsídios anuais a projectos de jazz, mas o maior apoio tem partido de certas autarquias que sustentam vários festivais.

A fundação leva a cabo mais alguma iniciativa ao nível do jazz, para além desta? A Gulbenkian desenvolve acções pedagógicas em torno do jazz? Digo junto de escolas, dos jovens?

O projecto Descobrir do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura, inclui na sua programação anual várias acções pedagógicas de jazz.

Precisamente, toda a actividade do projecto Descobrir dirige-se a escolas e a grupos organizados que são convidados a frequentar a oferta que se estende de Outubro a Setembro do ano seguinte, uma acção que tem tido total aceitação.

Acredita que o Jazz em Portugal ainda está muito mistificado? Quero dizer, acredita que ainda não há grande conhecimento da música que se faz e dos músicos que existem?

O jazz feito por músicos portugueses encontra-se em franca expansão materializada em diversos grupos e dispondo de algumas estrelas como Bernardo Sassetti e Mário Laginha. É uma consequência da globalização do gosto e de várias escolas que surgiram depois da Escola do Hot Clube de Portugal em 1980 e que foi pioneira. Hoje, também, se estuda a gramática e a sintaxe do jazz no ensino superior e existem vários jovens músicos que estudaram em Nova Iorque e Boston, enquanto outros preferem o ensino do jazz na Europa. O acesso à edição de discos amplia o conhecimento da realidade portuguesa do jazz, assim como a rede de locais para concertos. Existe, de facto, uma consciência mais profunda do que é ser, hoje, músico de jazz em Portugal. Contudo, ainda não se verifica na realidade portuguesa uma identidade distinta como se observa, por exemplo em países como a França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Itália, Bélgica, Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia, onde a linguagem do Jazz se encontra desenvolvida e sedimentada com identidades visíveis. Mas creio que será uma questão de tempo.

Esta entrevista foi conduzida por e-mail ao Director Artístico do Festival “Jazz em Agosto” da Fundação Calouste Gulbenkian, Rui Neves, em Maio de 2009; A tradução do Português para o Inglês é da responsabilidade de Maria Isabel Viegas.

Entrevistado por Isabel Viegas (Junho 2009)

www.musica.gulbenkian.pt

english here en français