Jazz em Portugal II :

Luís Hilário, Hot Club Portugal.

O Hot Club Portugal é o mais antigo clube inteiramente dedicado ao jazz em Portugal. Inaugurado em 1948, desenvolve desde então, a sua actividade de divulgação, formação e difusão deste género musical. Situado numa cave da Praça da Alegria em Lisboa, o Hot Club é um espaço onde, ao mesmo tempo, se respira história e se perspectiva o futuro, no painel de fotografias figuram vultos como Louis Amstrong, Dexter Gordon ou Count Basie e é por esta sala lisboeta que passam quase todas as novas promessas do jazz português. Macao.fr decidiu conhecer este clube de renome internacional e foi falar com o seu programador e director artístico, Luís Hilário.

O Hot Club está intimamente ligado à história do Jazz em Portugal, fale-nos um pouco do seu percurso ?

O Hot Clube de Portugal (HCP) foi fundado em 1948 por um dos primeiros e mais entusiastas amantes do jazz em Portugal. Foi fundado por Luís Villas-Boas, sócio nº1, na sequência de um programa radiofónico com o mesmo nome que ele apresentava no então chamado Rádio Clube Português. Ao longo destes 60 anos de actividade o HCP teve como objectivo e mérito a divulgação desta expressão musical, atravessando e resistindo ao mesmo tempo, às grandes alterações sociais e culturais que se produziram no nosso País.

Desde a sua criação, passaram pelo Clube a quase totalidade dos músicos portugueses de jazz (e não só) para além de históricos do jazz Mundial como são o caso de Count Basie, Dexter Gordon, Thad Jones, Lee Konitz,... inúmeros nomes não só do passado como também do presente.

Apesar da sua pequena sala e dos parcos recursos financeiros o HCP sobreviveu todos estes anos como um verdadeiro Clube de jazz mantendo excelente reputação entre os músicos que nos visitam. Um ambiente muito “jazz” e descontraído, perdido já em muitos outros Clubes, é talvez o maior atractivo do local.

É difícil manter uma programação frequente? Quais são os principais desafios ?

Nos últimos 20 anos a evolução quantitativa e qualitativa dos músicos de jazz portugueses foi sem duvida a maior que alguma vez ocorreu. Por essa razão há hoje em dia inúmeros grupos/projectos com qualidade para se apresentar em qualquer parte do Mundo. A dificuldade neste momento em programar está na decisão de excluir alguns dos candidatos. A agenda do Clube para 2009 está completa com músicos nacionais e estrangeiros e 2010 tem poucas datas agendadas porque não é nossa intenção programar a tão longo prazo.

Como vê o panorama actual do jazz em Portugal ?

A resposta a esta pergunta foi em parte dada na resposta anterior. Há uma quantidade considerável de músicos/projectos com qualidade e pena é que os locais onde podem mostrar o seu trabalho e consequentemente a sua evolução, não apareçam na mesma proporção. Também várias correntes estilísticas principalmente desde o “mainstream” ao “contemporâneo”, estão hoje representadas no panorama musical do jazz português.

Considera que em Portugal existe já uma cultura jazz ? Existe já um Jazz Português ?

O jazz é em todo o Mundo uma musica de minorias. Em Portugal neste momento e para além dos inúmeros concertos , há cerca de 30 Festivais anuais. Actualmente muitos municípios e entidades não publicas apoiam esta musica usando parte dos seus orçamentos para a cultura na promoção de concertos de jazz. Estou convencido que existe tanto essa “cultura” jazz como na maioria dos Países Europeus.

Em Portugal neste momento existem também cerca de 20 escolas de musica com departamento de jazz. Todos os anos essas escolas lançam novos talentos num mercado que apesar de melhor, continua muito pequeno para acolher e dar trabalho a todos.

Existe um evento (ao qual estou directamente ligado) que se chama Festa do Jazz do Teatro São Luiz (Lisboa) e que este ano (7ª edição) terá lugar nos dias 26, 27 e 28 de Junho. Por este evento, dedicado ao Jazz Português passam dezenas de músicos, estudantes, jovens e “consagrados” em 3 dias de concertos que em 4 salas se desenvolvem entre as 14h00 e as 02h00. Este tipo de Festival seria impossível fazer há 20 anos (envio-lhe em anexo elementos sobre a próxima edição).

O Jazz feito em Portugal é conhecido/ reconhecido na Europa, no mundo ?

O jazz feito em Portugal é quase desconhecido no resto da Europa. Só os músicos que nos visitam com alguma regularidade reconhecem a qualidade de muitos dos nossos executantes.

De qualquer forma devo reconhecer que a culpa é fundamentalmente nossa. Ainda temos dificuldade em exportar “cultura”. Só a Maria João (voz) e poucos mais, têm algum reconhecimento internacional. Agora, também uma série de cantoras do chamado novo Fado são reconhecidas pelo Mundo, mas isto são outras musicas, modernamente chamadas de World Music e não propriamente, jazz.

Considera que é necessário sair de Portugal para “vingar” como músico de Jazz, quero dizer para obter a formação e experiência adequadas ?

Não sei! Como disse existem actualmente várias escolas em Portugal, com o ensino do jazz. Para além dos Conservatórios, 3 dessas escolas são Escolas Superiores de Musica. Há opções! No entanto, o sair, conhecer outros músicos de diferentes origens e outras perspectivas, será sempre algo de enriquecedor. Pelo que eu sei a maioria dos jovens portugueses que escolhem estudar no estrangeiro vão para a Holanda (Haia, Amsterdam) ou para EUA (N.Y e Boston). O contacto com músicos experientes em locais mais cosmopolitas do ponto de vista jazzistico, é sem duvida importante.

Como avalia o público português? Quem é o público português? Na sua opinião o jazz é ainda a música de um certa elite ?

Como já disse esta musica será sempre um musica de minorias. Não me lembro de nenhum musico de jazz que encha um estádio de futebol. De qualquer forma há hoje um conhecimento desta expressão muito maior do que existia há 20 anos. O primeiro grande Festival de Jazz em Portugal (Cascais) foi em 1971. Desde aí muito se evoluiu. O publico que frequenta os concertos é um publico muito heterogéneo, tanto do ponto de vista social como no que respeita à idade. O publico frequentador do HCP reflecte isto mesmo; há jovens de 14 anos e outros com mais de 70.

Acredita que o Jazz em Portugal ainda está muito mistificado ? Quero dizer, acredita que ainda não há grande conhecimento (pelos portugueses) da música que se faz e dos músicos que existem ?

Existe já um meio conhecedor, seja ele de Lisboa , Porto ou do resto do País. Mas, à semelhança do que deve acontecer em toda a parte, fora desse meio só os nomes mais mediáticos (Maria João, Mário Laginha, Bernardo Sassetti,...) são reconhecidos por um publico menos atento. A grande maioria dos portugueses não imagina que há mais de 20 escolas a ensinar jazz . Não imagina porque não tem interesse por esta ou por outra expressão artística. Essa maioria também não sabe sequer quantos museus há em Portugal ... ou em Lisboa.

O Hot Club sempre investiu bastante na formação de músicos de jazz, qual o quadro da formação actualmente?

O Hot Club sempre investiu e investe na formação dos seus alunos, com grande incidência no conhecimento e desenvolvimento da linguagem jazzística. Resumindo, tenta formar músicos virados para a “performance”. O quadro actual é melhor, em quantidade e qualidade e o HCP continua a ter uma grande mais valia na parte da formação porque conta nos seus quadros com uma boa parte dos melhores músicos portugueses nesta área.

O que diferencia a escola Luis Villas-Boas das outras escolas de jazz em terras lusas?

Actualmente todas as escolas, creio, estarem mais bem preparadas para transmitir os conhecimentos musicais que os alunos necessitam. A Escola de Jazz Luís Villas-Boas / Hot Clube de Portugal, não pode ter a pretensão de ser a melhor. Por razões já apontadas na alínea anterior é uma das melhores! Pode sem dúvida é chamar a si o mérito de ter sido pioneira e de lançar pela mão do seu primeiro director, o contrabaixista Zé Eduardo, a semente que 30 anos depois deu origem a esta considerável evolução.

Qual o futuro do Jazz em Portugal?

Qual o futuro de Portugal do ponto de vista económico e cultural? Quero acreditar que será melhor! É para isso que cá estamos! As respostas parecem-me estar interligadas!

Sei que existem vários festivais espalhados pelo país e também pequenos eventos organizados pontualmente, quais aconselhariam, ao público internacional, de visitar? Quais, de entre eles, têm na vossa opinião, melhor programação ?

O Jazz em Agosto na Fundação Calouste Gulbenkian em lisboa é paragem obrigatória no panorama internacional. De resto existem outros festivais de excelente nível, BragaJazz, Seixal Jazz, Jazz ao Centro, Coimbra, Portalegre, Guimarães, etc.

Na vossa opinião, qual o papel que desempenha o Hot Club Portugal, no panorama jazz português? De entre os jovens músicos que agora começam a despoletar, algum deles se destaca? Quem são os gigantes do Jazz Português?

O Hot Clube tem duas actividades, o Clube e a Escola. O Clube desempenha um papel fundamental como um dos poucos locais onde se pode ouvir Jazz semanalmente em Portugal, apresentando uma programação bastante variada. A Escola de Jazz tem vindo a perder terreno com o aparecimento de outras mais dinâmicas, o que é pena e pode levar mesmo ao encerramento da mais histórica esola de Jazz do País.

De entre os jovens músicos que agora começam a despoletar, algum deles se destaca?

Neste ultimos anos têm aparecido inumeros músicos de Jazz de elevado interesse, alguns a estudar em Portugal (onde a ESMAE do Porto tem feito um trabalho a todos os níveis notável) e no estrangeiro, onde parece ter-se esfumado a obsessão pelas escolas americanas (New School e Berklee), onde as escolas europeias têm formado um grande número de interessantes músicos (Bruxelas, Amsterdão e especialmente Roterdão). João Lobo, Gonçalo Almeida, Dezidério Lázaro, Júlio Resende, João Firmino, João Hasselberg, Luís Candeias, António Quintino, José Pedro Coelho, João Guimarães, Luís Figueiredo, são alguns desses músicos que prometem virar o jazz em portugal do avesso.

Quem são os gigantes do Jazz Português?

Os gigantes do Jazz Português são o Bernardo Sassetti, Mário Laginha, Carlos Barretto, João Paulo Esteves da Silva, Maria João, Carlos Martins, Carlos Bica e mais recentemente André Fernandes, Júlio Resende, Nelson Cascais.

Entrevistado por Isabel Viegas (Junho 2009)

www.hotclubedeportugal.org

english here en français