Jazz em Portugal I :

Pedro Costa, Clean Feed Records.

A Trem Azul, nos seus quatro ramos, tem um percurso admirável, um crescimento que deixa perceber muito trabalho, foi difícil chegar até aqui ?

Não, foi um crescimento gradual e muito natural. É claro que deu e dá muito trabalho, mas não foi dificil.

O que vos fez criar a Trem Azul em 2001? Como surgiu a ideia, a oportunidade ?

Sentir que havia espaço para um projecto destes. Quando digo espaço não estou a falar de espaço em portugal estou a falar de espaço global disponivel para o aparecimento de uma editora com estas caracteristicas. Sempre fez parte desta ideia criar uma editora de Jazz contemporaneo com a presença de músicos estrangeiros, ou seja, operar á escala mundial. Como não faz sentido ter uma editora e não fazer a sua distribuição, venda directa e trazer cá esses artsitas, o ciclo fechou-se. Mas não completamente, ainda há margem para se fazer um dia o Trem Azul Jazz Clube.

A Clean Feed, como nasceu, cresceu e se tornou no sucesso que é hoje ?

Nasceu em 2001 com a ideia de ocupar o espaço em aberto de uma editora a operar internacionalmente juntando músicos de várias proveniências como nenhuma outra associando um grafismo exemplar. Portugal, ao contrário do que pode parecer, é o local ideal para uma editora abrangente como a Clean Feed. Daqui se vê bem o que se passa em Nova Iorque, Chicago, Estocolmo, Oslo, Paris, Bruxelas, Viena, etc. Uma editora estabelecida numa cidade em que a cena Jazzistica não está tão evoluída permite-nos ver melhor o que se passa nos outros sitios. Não estamos cegos com o que se passa aqui mas estamos atentos ao que se passa no mundo.

No vosso site, falam da Trem Azul Distribuição como o negócio mãe da empresa, em que consiste, como funciona ?

Clean Feed est né en 2001 avec l’idée d’occuper un espace ouvert avec un label opérant internationalement comme aucun autre, en allant chercher du musicien provenant de partout dans le monde, associé à un travail exemplaire concernant le graphisme. Le Portugal, contrairement à ce que l’on pourrait croire est le pays idéal pour un label de ce type. D’ici, on peux apprécier ce qui se passe à New York, Chicago, Stockholm, Oslo, Paris, Brussels, Vienne, etc. Un label basé dans une ville, un pays où le jazz n’est pas très développé nous autorise à nous intéresser ce qui se passe à l’extérieur.

No vosso site, falam da Trem Azul Distribuição como o negócio mãe da empresa, em que consiste, como funciona ?

Isso foi "chão que já deu uvas". Em tempos foi a distribuição que aguentou a edição. Hoje em dia com esta crise instalada a venda dos CD's perdeu muita força e a distribuição representa muito menos na nossa empresa do que háuns anos acontecia.

Consideram o Jazz às Quintas um sucesso? Como é aceitação do público ?

O Jazz ás Quintas tem sido um sucesso pela adesão de público, temos casa cheia todas as semanas, mas um público que tem melhorado em qualidade todos os anos. As propostas que apresentamos não são as mais "mainstream" mas o nosso público sabe ao que vai, ouvindo atentamente e percebendo o sentido das mesmas. Posso dizer que a aceitação que o ciclo tem neste momento permite-nos apresentar uma programação mais contemporanea dentro daquilo que defendemos como a música mais vital dentro do Jazz e da improvisação.

Quem é o vosso público? Não só no CCB mas em todos os concertos organizados por vós.

É um público conhecedor interessado no som da surpresa, como um dia alguém chamou ao Jazz e com razão.

Acham que em Portugal, o jazz ainda está muito mistificado ? Quero dizer, que ainda se destina a uma certa elite e não ao público em geral ? Existe já uma tradição Jazz, por assim dizer…

Uma das lutas que tenho tido ao longo dos anos é no sentido dessa desmistificação. Para mim não faz sentido olhar para o Jazz como uma música elitista mas sim uma música aberta a todos quantos possuirem um espírito também aberto. Eu vejo o Jazz como uma música de intervenção e por isso muito relacionada com os tempos que vivemos. Existe uma tradição musical muito forte no nosso país. As pessoas gostam muito de música e procuram coisas novas incessantemente. Gostam de saber sobre as coisas.

Como caracterizam o “estado do jazz” em Portugal ?

O Jazz em portugal tem vindo a evoluir muito. Existem muitas escolas de e com Jazz, existem muitos músicos muito melhor preparados que há uns anos atrás e existe público interessado em ouvir. Quando digo há uns anos atrás falo de 10 / 15 anos atrás, não estou a falar de 30 ou 40 anos. As coisas mudaram muito nestes ultimos anos e se tudo correr bem vão continuar a mudar.

Existe alguma política de apoio à difusão e conhecimento do Jazz ?

Não. Existe muita gente no meio que de uma forma ou de outra contribuem para a difusão do Jazz em Portugal. Temos uma revista de Jazz especializada de alto nível, a Jazz.pt, temos várias editoras a lançar trabalhos de jazz e música improvisada no mercado (Clean Feed, Creative Sources e Tone of a Pitch), temos muitos festivais de Jazz, alguns do mais interessante que se passa no mundo (Jazz em Agosto), e ainda vamos tendo algum espaço nos jornais nacionais de maior tiragem (Público e Expresso).

A Trem Azul recebe alguma subvenção? Governamental ou outra.

Nada.

Sei que existem vários festivais espalhados pelo país e também pequenos eventos organizados pontualmente, quais aconselhariam, ao público internacional, de visitar? Quais, de entre eles, têm na vossa opinião, melhor programação ?

O Jazz em Agosto na Fundação Calouste Gulbenkian em lisboa é paragem obrigatória no panorama internacional. De resto existem outros festivais de excelente nível, BragaJazz, Seixal Jazz, Jazz ao Centro, Coimbra, Portalegre, Guimarães, etc.

Na vossa opinião, qual o papel que desempenha o Hot Club Portugal, no panorama jazz português? De entre os jovens músicos que agora começam a despoletar, algum deles se destaca? Quem são os gigantes do Jazz Português?

O Hot Clube tem duas actividades, o Clube e a Escola. O Clube desempenha um papel fundamental como um dos poucos locais onde se pode ouvir Jazz semanalmente em Portugal, apresentando uma programação bastante variada. A Escola de Jazz tem vindo a perder terreno com o aparecimento de outras mais dinâmicas, o que é pena e pode levar mesmo ao encerramento da mais histórica esola de Jazz do País.

De entre os jovens músicos que agora começam a despoletar, algum deles se destaca?

Neste ultimos anos têm aparecido inumeros músicos de Jazz de elevado interesse, alguns a estudar em Portugal (onde a ESMAE do Porto tem feito um trabalho a todos os níveis notável) e no estrangeiro, onde parece ter-se esfumado a obsessão pelas escolas americanas (New School e Berklee), onde as escolas europeias têm formado um grande número de interessantes músicos (Bruxelas, Amsterdão e especialmente Roterdão). João Lobo, Gonçalo Almeida, Dezidério Lázaro, Júlio Resende, João Firmino, João Hasselberg, Luís Candeias, António Quintino, José Pedro Coelho, João Guimarães, Luís Figueiredo, são alguns desses músicos que prometem virar o jazz em portugal do avesso.

Quem são os gigantes do Jazz Português?

Os gigantes do Jazz Português são o Bernardo Sassetti, Mário Laginha, Carlos Barretto, João Paulo Esteves da Silva, Maria João, Carlos Martins, Carlos Bica e mais recentemente André Fernandes, Júlio Resende, Nelson Cascais.

Entrevistado por Isabel Viegas (Junho 2009)

www.cleanfeed-records.com

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